Leitura · 28 de setembro de 2026
O colecionador mudou. No Brasil, o caminho até o relógio não.
A Forbes Brasil publicou uma entrevista com Austen Chu, fundador do marketplace Wristcheck, sobre como as novas gerações reescreveram as regras da alta-relojoaria. O diagnóstico é bom. Só que ele descreve um mercado em que o obstáculo é a fila da boutique — e aqui o obstáculo é outro.
O que a reportagem diz
Chu descreve três mudanças. A internet acabou com o monopólio da informação: conhecer uma marca dependia de família, de vendedor ou de círculo, e hoje depende de uma busca. O mercado de revenda deixou de ser motivo de desconfiança e virou infraestrutura — segundo dados da EveryWatch citados pela reportagem, movimentou US$ 10,5 bilhões só no primeiro semestre de 2026, 37,2% acima de um ano antes. E a paciência acabou: o comprador novo não aceita esperar dois anos por uma alocação.
A consequência que mais interessa aqui é a quarta, que decorre das outras três: o colecionador entra pelos nomes grandes e migra para o independente. Chu diz que essa migração em direção a fabricantes nichados fica clara à medida que o gosto se forma — depois do Rolex, do Patek, do Audemars.
Onde a régua brasileira é outra
A reportagem trata de alta-relojoaria. Fala de F.P. Journe, de Richard Mille, de uma Grande Complication que leva oito meses para ser montada à mão. Não é o andar em que a maioria das pessoas compra, e não é o andar da Coroa.
Mas o comportamento que ela descreve não é privilégio de quem compra Patek. Entrar mais cedo, trocar mais vezes, sair do óbvio: isso acontece igual um andar abaixo. O que muda de país para país não é o desejo. É o que acontece depois dele.
Lá, esperar significa fila de alocação. Aqui, quem encontra uma marca independente no Instagram e decide comprar esbarra em três coisas que não têm nada a ver com raridade:
- A marca simplesmente não entrega. O checkout recusa o endereço, ou o frete para o Brasil não existe.
- Entrega, e a conta chega na porta. Na importação declarada pelo próprio comprador, são 60% de imposto de importação mais o ICMS do estado, cobrados na entrega, sobre o produto mais o frete.
- A garantia mora fora. Defeito significa despachar o relógio para outro país, por sua conta e risco, e esperar.
Nenhum desses três aparece na reportagem, porque nenhum deles existe no mercado que ela descreve.
Por que isso pesa mais, e não menos, abaixo de R$ 15 mil
O raciocínio sobre gratificação imediata vale aqui com mais força. Quem compra um independente de seis a treze mil reais não está disputando alocação com ninguém — está tentando resolver logística e tributo. A espera não é escassez: é alfândega.
E a diferença entre um relógio que chega em uma semana, com nota no seu nome, e um que chega em seis com uma cobrança na porta não é diferença de preço. É a experiência inteira.
É por isso que a Coroa importa em nome próprio, em vez de intermediar a importação de quem compra.
Nota fiscal de mercadoria no seu nome. Garantia exercida no Brasil. Declaração de importação no CNPJ de quem vendeu, não no seu CPF.
O que não dá para concluir da reportagem
Que o Brasil vive o mesmo ciclo que a China viveu, ou que o mercado secundário daqui vai crescer 37% ao ano. A matéria não fala do Brasil em nenhum momento, e os números que traz são globais. Quem quiser saber o tamanho do mercado brasileiro de independentes vai ter que medir — e essa medição, hoje, não existe publicada.
Preferimos dizer isso a emprestar um número que não é nosso.
Esta é uma leitura da Coroa sobre reportagem de terceiro. Não temos relação comercial com a Forbes, com a Wristcheck ou com qualquer marca citada. A reportagem original é de Beatriz Polido e Giovanna Simonetti, publicada em 2 de setembro de 2026 na Forbes Brasil. Os números citados são os da própria reportagem, atribuídos por ela à EveryWatch.